
Foto: Getty Images
A
sífilis é uma doença infecciosa que acomete ambos os sexos, e que é
causada pela bactéria Treponema pallidum. No Brasil, estimativas da
Organização Mundial da Saúde de Sífilis contabilizam 937.000 casos por
ano, incluindo os casos de sífilis congênita (transmissão da doença para
o feto, durante toda a gravidez, através da placenta).
Conforme
destaca Patrícia de Rossi, ginecologista e obstetra do Conjunto
Hospitalar do Mandaqui, em São Paulo, a maioria dos novos casos (75%) é
em homens que mantêm relações sexuais com outros homens. “Mas, as
pessoas que têm parceiros casuais, não usam preservativos ou são
infectadas pelo HIV também são de alto risco para adquirir a infecção”,
diz.
A ginecologista explica que a forma mais comum de contágio é
por relação sexual com parceiro infectado, mesmo que assintomático. “A
transmissão ocorre pelo contato direto com as lesões, que podem estar no
pênis, vagina, vulva (parte externa dos genitais femininos), ânus ou
reto, e, mais raramente, na boca. Não há transmissão por contato com
objetos como toalhas, maçanetas, sanitários, banheiras ou piscinas.
Estima-se 30% de risco de adquirir sífilis por meio de relação sexual
com um portador da doença”, destaca.
Sintomas da sífilis
Vale
destacar que a sífilis é uma doença com diversas apresentações
clínicas, que incluem uma ampla variedade de sinais e sintomas, em
diversas fases da infecção.
Patrícia explica que a doença se desenvolve em três fases sequenciais com períodos de latência (sem sintomas). Confira abaixo:
Sintomas da sífilis primária
“Na
sífilis primária, aparece uma lesão no local da infecção. A ferida,
geralmente única e chamada cancro duro, começa como uma pequena
‘bolinha’ que vira uma úlcera (ferida mais funda), indolor, endurecida e
que pode liberar um líquido claro altamente contagioso. Os locais mais
comuns são pênis, vulva, ânus e reto. A lesão aparece de 10 a 90 dias
depois do contato, mais comumente 3 semanas, e pode causar um aumento
dos gânglios (íngua) na virilha. A ferida se cura sozinha em 1 a 3
meses, sem deixar cicatrizes. Se não for tratada, a sífilis vai para o
próximo estágio”, diz Patrícia.
Bianca Grassi de Miranda,
infectologista do Hospital Samaritano de São Paulo, ressalta que a
sífilis primária causa uma úlcera (ferida) na região de inoculação da
bactéria, que é geralmente no trato genital, mas pode acontecer na boca,
por exemplo. “É indolor e desaparece espontaneamente após algumas
semanas”, lembra.
“Lesões típicas como o cancro duro, condiloma
lata e lesões de mucosas são altamente infectantes, sendo que 1 em cada 3
indivíduos expostos tornam-se infectados”, acrescenta a infectologista.
Sintomas da sífilis secundária
Patrícia
explica que a sífilis secundária inicia-se 4 a 10 semanas após o
surgimento do cancro. A bactéria espalha-se pelo organismo, causando
sintomas gerais, como:
- Mal-estar;
- Febre;
- Perda de apetite;
- Náuseas;
- Dor de cabeça;
- Cansaço;
- Queda de cabelo;
- Lesões e feridas avermelhadas que não coçam nas palmas das mãos e sola dos pés e em outras partes do corpo.
“É comum que os sintomas sejam confundidos com outras doenças, dificultando o diagnóstico”, diz a ginecologista.
Bianca
destaca que após semanas ou alguns meses após a infecção primária,
cerca de um quarto dos pacientes não tratados podem evoluir para a
sífilis secundária. “Os pacientes nem sempre se lembram da lesão
primária. Vários são os sintomas que podem aparecer na sífilis
secundária, inclusive dores musculares, queda de cabelo e sobrancelhas,
alterações intestinais, hepáticas, renais e até em SNC (Sistema Nervoso
Central)”, diz.
Sintomas da fase latente
Patrícia explica
que a sífilis latente é a fase seguinte da infecção, em que a bactéria
continua no organismo mas não há sintomas. “A maioria das pessoas é
diagnosticada nesta fase e não se recorda de ter tido sintomas das fases
anteriores. O diagnóstico é por exames de sangue específicos para
sífilis (VDRL e FTA-Abs)”, diz.
Bianca ressalta que a fase latente
é justamente caracterizada pela ausência de sintomas, com exames
sorológicos (sangue) positivos. “Pode ser dividida em latente recente
(menos de um ano de infecção ) ou latente tardia (mais de um ano de
infecção)”, acrescenta.
Sintomas da sífilis terciária
A
infectologista Bianca explica que a sífilis terciária é a fase mais
tardia da doença, e que há manifestações clínicas geralmente após três
anos. “É a fase mais grave, onde ocorrem os problemas mais sérios. Neste
período, a doença não é contagiosa. Pode haver problemas cardíacos,
neurológicos ou vasculares”, diz.
Patrícia ressalta que após
vários anos ou décadas sem sintomas, cerca de 30% dos infectados evoluem
para a sífilis terciária. “A bactéria pode afetar vários órgãos do
corpo em graus variados de gravidade. Por exemplo, podem aparecer
feridas na pele, dores nos ossos e articulações, inflamação no coração e
nos vasos sanguíneos, meningite e paralisia. Olhos e fígado podem ser
afetados, bem como o cérebro, causando demência”, acrescenta.
Bianca
destaca que, sempre que houver lesões genitais, tanto homens quanto
mulheres devem procurar ajuda médica. “Além disso, sempre que o
indivíduo sentir-se doente, sem melhora aparente, deve ser submetido à
avaliação médica, pois vários problemas de saúde podem ser semelhantes à
sífilis”, diz.
Como é feito o diagnóstico da doença

Foto: Getty Images
Bianca
explica que o diagnóstico se faz pelo exame clínico quando houver
sinais e sintomas, e por exames de sangue – os testes chamados
treponêmicos e não treponêmicos. “Servem para o diagnóstico inclusive
quando não há nenhum tipo de sintomas e para controle após o tratamento.
Devem ser realizados, portanto, periodicamente em pessoas com vida
sexual ativa. É obrigatório no pré-natal e na época do nascimento dos
bebês, para diagnóstico de sífilis congênita”, diz.
A
infectologista acrescenta ainda que o exame pode ser feito na rede
pública de saúde, através de teste rápido, com uma “picada” no dedo.
Patrícia
ressalta que o diagnóstico é baseado em exames de anticorpos da sífilis
no sangue, mesmo nas pessoas que não têm sintomas. “Geralmente, é feito
um teste de triagem chamado VDRL que, se positivo, é confirmado por
outro mais específico (FTA-Abs). Esses exames são simples e podem ser
feitos, gratuitamente e de forma anônima, em Serviços de Assistência
Especializada (SAEs) em todo o Brasil. Se houver lesões, uma amostra
pode ser enviada para análise laboratorial. Quando há suspeita de
infecção no sistema nervoso central, é necessário retirar uma amostra de
líquido cefalorraquidiano (liquor) para fazer os testes”, diz.
Causas da sífilis
A
doença é causada por um tipo de bactéria, Treponema pallidum. Bianca
lembra que a forma clássica de transmissão é o contato direto com lesões
ativas principalmente por via sexual (vaginal, oral, anal).
Existe ainda a sífilis congênita, em que a mãe passa a doença para o feto através da placenta ou no parto.
Raramente a transmissão ocorre pelo contato direto com a lesão na boca (ou seja, pelo beijo).
Vale ressaltar que não há transmissão por contato com objetos , como toalhas, maçanetas, sanitários, banheiras ou piscinas.
É possível se prevenir?

Foto: Getty Images
Sim, e isso é muito importante. Conforme destacam as profissionais, os melhores meios para isso são:
- Uso
de preservativo nas relações sexuais (o que vale também para quem tem
parceiro único, pois a pessoa pode estar infectada e não saber);
- Exames de sorologia para identificação da infecção latente (para pessoas de qualquer idade);
- Tratamento imediato de qualquer lesão sugestiva;
- Exames
laboratoriais pré-natais para diagnóstico de sífilis devem ser
obrigatórios no primeiro e terceiro trimestres da gravidez, além do
momento do parto, segundo a Organização Mundial da Saúde.
Vale lembrar que a prevenção é sempre o melhor caminho para cuidar da sua saúde como um todo.
Tratamentos para a sífilis
Patrícia
explica que o tratamento da sífilis – antes da fase terciária – é feito
com injeções de penicilina benzatina (a famosa Benzetacil). “No
primeiro ano da doença (fases primária e secundária), uma única dose de
2.400.000 unidades de penicilina é suficiente, mas, se a duração da
doença for maior que um ano ou desconhecida, são aplicadas mais duas
doses com intervalo de uma semana entre elas.”
Durante o
tratamento, a pessoa não deve ter relações sexuais. “É necessário que os
parceiros sexuais sejam comunicados, testados e tratados se estiverem
doentes, pois podem transmitir a doença de volta”, destaca a
ginecologista.
“Nos casos de alergia à penicilina, podem ser
usados outros antibióticos ou feita dessensibilização. Durante a
gravidez, somente a penicilina é eficaz em tratar o bebê”, explica
Patrícia.
Na fase terciária, o tratamento fica na correção das lesões, que geralmente são irreversíveis, conforme explica a ginecologista.
“Após
o tratamento, são feitos exames de sangue periódicos para constatar a
cura. Usa-se somente o valor do VDRL, uma vez que o FTA-Abs se mantém
positivo em mais de 95% dos casos tratados (chama-se esse fato de
cicatriz sorológica)”, acrescenta Patrícia.
5 dúvidas sobre a sífilis esclarecidas

Foto: Getty Images
Abaixo você confere as respostas para algumas dúvidas comuns relacionadas à doença.
1. O número de casos de sífilis (tanto em adultos, como em gestantes e crianças) tem crescido nos últimos anos. Por quê?
Bianca
explica que, em primeiro lugar, houve aumento do número de
notificações, por melhora nas formas de coleta de informações e
obrigatoriedade de notificação dos casos às autoridades em saúde. “No
entanto, a maior liberação sexual aliada à baixa adesão ao uso de
preservativo contribui para a disseminação da doença, em diversas faixas
etárias”, diz.
Ainda de acordo com a infectologista, falhas na atenção ao pré-natal fazem com que haja maior incidência de sífilis congênita.
Para
melhorar esse quadro, segundo a infectologista, estratégias para
diagnóstico precoce e tratamento a tempo devem ser melhores
estruturadas.
2. Por que a sífilis é ainda mais perigosa para a gestante?
Bianca
explica que a sífilis, quando atinge o feto, pode causar óbito fetal,
infecção do feto e malformações. “Na sífilis congênita pode haver uma
série de malformações, podendo variar desde problemas na placenta,
restrição de crescimento intrauterino, até malformações cardíacas, do
sistema nervoso central, ósseas, etc.”, diz.
“Até 80% dos
recém-nascidos de mães com sífilis não tratadas durante a gestação podem
apresentar problemas”, acrescenta a infectologista.
3. Como a mãe transmite a sífilis para o feto?
Quando
a gestante se infecta (adquire a doença), o T. pallidum atravessa a
placenta e infecta o feto, conforme explica Bianca. “Isso pode ocorrer
em qualquer idade gestacional, sendo mais grave nos estágios iniciais da
gravidez, porém, mais frequente conforme maior a idade gestacional”,
destaca a infectologista.
4. Qualquer pessoa pode ter sífilis?
Sim.
Bianca ressalta que homens e mulheres de qualquer idade podem adquirir
sífilis, inclusive crianças, através da transmissão vertical de mães
infectadas. “No entanto, dados epidemiológicos internacionais apontam
para maior incidência nos casos de homens que têm relação sexual com
parceiros do mesmo sexo”, diz.
5. A sífilis pode ser transmitida pelo beijo?
Sim,
mas isso é raro. Patrícia lembra que a transmissão ocorre pelo contato
direto com as lesões, encontradas geralmente no pênis, vagina, vulva
(parte externa dos genitais femininos), ânus ou reto.
Sífilis congênita: quais são os riscos?

Foto: Getty Images
Bianca
explica que sífilis congênita é a infecção do feto / recém-nascido
transmitida durante a gestação ou o parto para o concepto. Há diversas
manifestações clínicas no recém-nascido, além de aborto e óbito do bebê,
conforme destaca a infectologista:
- Podem ocorrer malformações graves do sistema nervoso central;
- Malformações dos ossos;
- Malformações dos dentes;
- Cegueira;
- Surdez;
- Feridas pelo corpo após o nascimento;
- Pneumonias.
A
ginecologista Patrícia destaca que em 40% dos casos de sífilis
congênita, os bebês morrem antes de nascer, e outros 40% são seriamente
afetados, mesmo após o nascimento. “Eles podem nascer pequenos ou
antes do tempo, sofrer convulsões, cegueira, surdez e morrer
precocemente. Por isso, são obrigatórios exames de sangue para sífilis
durante a gravidez, para que a mãe e o bebê sejam tratados”, diz.
O
diagnóstico, de acordo com Bianca, é pelo exame de sangue, que deve ser
realizado no pré-natal, no primeiro trimestre da gravidez, último
trimestre e no parto. “Nos casos em que não houver registro do
pré-natal, deve-se realizar o teste antes do parto”, diz.
O
tratamento é baseado em antibióticos para a criança, mãe e parceiro. “O
bebê com sífilis precisa de uma série de exames e de acompanhamento
médico especializado, até a primeira infância”, acrescenta a
infectologista.
Consequências da sífilis não tratada
A
infecção não tratada pode evoluir para sífilis terciária, com várias
manifestações clínicas graves. “Se a gestante infectada não tratar, pode
passar para seu bebê”, explica Bianca.
“Além disso, a doenças é
altamente contagiosa, portanto, se o indivíduo não se tratar, pode
disseminar amplamente a doença. Pessoas com HIV podem ter quadros mais
graves de sífilis”, acrescenta a infectologista.
Agora você já
sabe que com este tipo de doença não se brinca! Tanto mulheres quanto
homens devem se proteger contra a sífilis, e a melhor maneira de se
fazer isso é apostando no sexo seguro, com o uso de camisinha.
No caso específico de gestantes, a atenção deve ser redobrada, e por isso os exames pré-natais são essenciais.
Fonte: Dicas de mulher